
A ideia deste post é compartilhar algumas dicas com os estudantes e recém-formados em Psicologia que almejam a inserção na área clínica. Para isso, considero importante falar um pouco da minha trajetória profissional, que conta mais de doze anos de atuação... Como passa rápido!
Começo destacando a importância dos estágios acadêmicos. Eles deixam o aluno em um ponto de exaustão tremendo - os primeiros contatos com os clientes, relatórios, supervisões, avaliações... Mas mesmo com todo esse estresse, eles são experiências poderosas que marcam a vida profissional de forma muito intensa. Lembro-me do meu primeiro atendimento na clínica-escola do Mackenzie, onde me formei. Era um processo de psicodiagnóstico para a matéria de Técnicas e Exames Psicológicos (TEP) e recebemos, eu e minha dupla (a querida amiga Izabella Barros), a mãe de um menino de seis anos que dizia que seu filho era uma criança muito fácil, e exemplificou da seguinte maneira: "no dia do seu aniversário ele me pediu um relógio de pulso e um ovo frito! E era isso que o faria feliz". Eu cito esse fato para ressaltar a riqueza desse contato: mais do que estagiários que estão sendo avaliados em uma clínica-escola, estamos, nesse momento, em contato com a singularidade daqueles que nos procuram, estamos em contato com histórias diversas e únicas e precisamos estar inteiros ali, naquele momento, para percebermos o que o cliente está nos falando. E esse menininho de seis anos, na sua simplicidade, apresentou-me um mundo completamente novo e diferente das minhas referências até então. Por isso, aos estudantes, a primeira dica: procurem aproveitar esse momento com o seu cliente, esqueçam o relatório, a avaliação, a nota... ofereçam uma escuta cuidadosa, acolhedora, presente! Considerem a suas impressões, deem espaço à intuição e quanto ao medo de errar... bom, pensem que vocês estão começando a construir o profissional que querem ser (e detalhe: essa construção nunca termina, mesmo com anos e anos de experiência!) e os erros fazem parte de qualquer percurso! Mas eu acredito que em situações críticas, de difícil manejo ali com o cliente, não pensem no que o supervisor vai dizer - se você agiu de forma correta ou não, se isso implicará na sua nota... Mas lembrem-se que vocês estão diante de outro ser humano e que se agirem de forma ética, coerente com a compreensão que estão tendo no encontro terapêutico, dificilmente errarão! Falo isso porque considero que esse encontro psicólogo-cliente extrapola qualquer teoria ou manual teórico que possa existir na Psicologia!
Bom, tive a felicidade de cursar uma faculdade que me ofereceu uma bagagem muito significativa na área clínica, repleta de estágios curriculares e extra-curriculares! Se o seu curso oferece a possibilidade de escolha entre matérias apenas teóricas e matérias teórico-práticas, escolham as últimas!
Concluído o curso, sai em busca de contatos e parcerias. Para isso, juntei meus projetos realizados na faculdade e visitei algumas escolas e clínicas, colocando-me à disposição. Dessas visitas nasceu uma parceria com uma escola particular que abriu espaço para que eu implantasse meu projeto de Orientação Vocacional junto aos alunos do último ano do ensino médio. E foi assim que me senti psicóloga andando com as próprias pernas! É claro que na época fazia minha psicoterapia pessoal e tinha meu grupo de supervisão. Isso é fundamental na formação do psicólogo! A partir do meu trabalho em O.V., recebi alguns encaminhamentos por parte da coordenadora pedagógica e foi assim que comecei a atender no consultório.
A princípio, sublocava um espaço, o que considero até hoje a melhor opção para quem está começando.
Nesse ponto, gostaria de reforçar mais alguns pontos, agora para os recém-formados. Não tenham medo de se mostrarem! Se você não buscar esses contatos, eles não cairão nas suas mãos sem esforço. É claro que você escutará muito mais a palavrinha "não", ok! A questão é não desanimar! Faça um levantamento dos lugares que gostaria de propor parceria ou oferecer seu trabalho. Prepare um material de apresentação para deixar nos locais que visitar - seu currículo, seu cartão, uma proposta de trabalho, como por exemplo: um programa de palestras ou de Orientação Vocacional.
Muitos psicólogos dizem que não atuam na clínica porque é uma área muito solitária, que é você e seu cliente entre quatro paredes e só... isso, no meu ponto de vista, é uma grande falácia! Sempre trabalhei em consultório e a última coisa que eu considero é que essa seja uma atividade solitária! Precisamos estar sempre buscando parcerias, ampliando nossa rede de contatos, estudando, fazendo cursos e conhecendo pessoas, e mesmo quando estamos diante de nosso cliente, estamos diante de um mundo que se abre na nossa frente, completamente único, dinâmico, imprevisível! Isolar-se nas paredes do consultório pode até ser uma escolha, mas está longe de ser a regra!
Uma alternativa muito interessante nesse sentido é formar um grupo de estudos com colegas de faculdade que compartilhem os mesmos interesses na Psicologia.
Continuando minha trajetória, após dois anos formada, continuava com o programa de Orientação Vocacional e os atendimentos clínicos e uma nova configuração aconteceu na minha carreira - integrei uma equipe multiprofissional, composta por psicólogas, psicopedagogas e fonoaudiólogas. Essa nova fase foi fruto dos contatos que estabeleci ao longo dos dois anos como psicóloga. Com essa equipe permaneci bons anos, sendo uma experiência extremamente enriquecedora. Nesse momento, já tinha uma caminhada que me permitia alçar voos mais altos e foi o que aconteceu - montei, junto com essa equipe, uma segunda unidade da clínica e participei de cada fase da construção de um espaço terapêutico, desde a escolha do local, a distribuição das salas, a decoração da clínica, a contratação de funcionários, a divisão das despesas, investimentos com divulgação... e assim, um novo capítulo na minha história profissional foi construído, cheio de conquistas, trocas, crescimento, aprendizagem, responsabilidades. Aprendi que para trabalhar em equipe é preciso alinhar objetivos respeitando as individualidades - só assim a equipe cresce como um todo! E essa foi uma experiência muito bem sucedida!
Já estabilizada na clínica, voltei meu olhar para uma outra área da Psicologia que também sempre me atraiu - a Psicologia Hospitalar. E investi nessa opção - busquei cursos, informações sobre aprimoramentos, estudei muito e consegui ingressar no programa de aprimoramento do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Outra oportunidade fantástica que acrescentou muita experiência à minha bagagem. Estar em um hospital do porte do HC, em um centro de referência como é o InCor, trabalhar ao lado de profissionais competentes, foi de fato muito importante! Lá pude vivenciar situações inusitadas, descobrir como uma palavra ou "simplesmente" a escuta faz toda a diferença para alguém que está totalmente fragilizado no ambiente inóspito que é o hospital. E assim eu vi a importância da Psicologia dentro do contexto hospitalar (embora nem todos os profissionais a reconhecessem...) e ficava cada vez mais encantada com a beleza da minha profissão! Foi ficando cada vez mais claro que todo crescimento, toda mudança que acontece no processo psicoterapêutico, se dá na troca entre psicólogo-cliente! É o encontro, é a troca, é a implicação dos dois lados que promove a saúde. Não é o conhecimento do profissional, quantos cursos ele tem ou o quanto ele sabe... isso não basta se ele não conseguir olhar para a pessoa que está diante dele e ter o interesse genuíno de acolher o que é dito. Depois do aprimoramento, busquei o curso de aperfeiçoamento, mas no Hospital do Servidor Publico. Com essas duas experiências no hospital tive contato com uma realidade diferente daquela do consultório - demandas diferentes, contextos sociais distintos, mas o raciocínio clínico é o mesmo! Isso não muda!
Conforme vivi essas experiências, fui percebendo que me fortalecia cada vez mais como profissional e sobretudo me reconhecia na minha escolha profissional.
Durante esse tempo que estive no hospital, foi perfeitamente possível conciliar aprimoramento/aperfeiçoamento com a clínica. Uma experiência complementava a outra!
Foi no hospital também que eu consegui definir a abordagem que eu sigo até hoje na Psicologia! E isso só aconteceu após cinco anos de experiência na área. Diante da dor, do sofrimento, da angústia e da proximidade com a morte - aspectos tão fortes no cenário hospitalar - comecei a questionar muitos pontos que sustentavam teoricamente o meu trabalho como psicóloga. Como, em um contexto tão restrito - enfrentado por muitos pacientes - alguns conseguiam ter esperança, fazer projetos e encontrar sentido para continuarem vivendo e lutando pela vida! Pulsão de vida & pulsão de morte não eram suficientes para dar conta daquelas situações... mecanismos de defesa, inconsciente, traumas... era tudo muito pequeno diante da realidade que eu presenciava dia a dia no hospital. E foi assim que eu deixei a via da Psicodinâmica e entrei na Fenomenologia Existencial!
A partir dessa experiência, busquei um curso de formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial. Isso aconteceu em 2005, o curso teve duração de dois anos e de lá pra cá não parei mais de estudar a abordagem! Escreverei outro post falando da minha relação com a Fenomenologia Existencial e como ela me encanta cada vez mais... essa é uma longa história! Nesse momento, quero ressaltar um ponto: as pessoas saem da faculdade julgando que precisam definir uma abordagem, uma área... e aí é enfrentar uma grande angústia, pois são muitos caminhos a serem seguidos! E eu pergunto: por que você acha que tem que escolher um caminho, uma abordagem?
Calma! Eu penso que não precisa! Você sai da faculdade com uma bagagem que te possibilitará atuar como profissional, qualquer seja o caminho a ser escolhido. Mas não podemos esquecer que a faculdade é generalista. Você vai aprender um pouquinho de cada coisa e mesmo assim, não pense que terá contato com todas as possibilidades! No meu caso, eu praticamente não tive nada sobre a Fenomenologia Existencial na faculdade! Por isso, eu costumo dizer que nós estudamos muito, mas muito mais, depois que terminamos a faculdade. E o melhor da história: é que aí estudaremos o que realmente nos interessa! Quantas matérias eu precisei estudar na faculdade, que hoje faço questão de não querer saber... Por esses motivos, penso que a escolha de uma abordagem deva partir da sua prática, da sua experiência, de como você vai se descobrindo como profissional, nomeando a sua visão de homem e de mundo... e aí, a escolha acontece muito naturalmente! Eu até penso que não escolhi a abordagem, mas ela me escolheu! É uma sensação compartilhada com muitos outros colegas de profissão que também fizeram escolhas a partir da prática e não o contrário!
Após concluir a formação, fui convidada a assumir como professora dois módulos no curso - o de Psicoterapia Infantil e o de Somatização. E nesse momento, mais um grande desafio - encarar a atividade docente, totalmente inédita na minha carreira. Só lembrando - tudo isso acontecendo sempre concomitante ao meu trabalho na clínica!
Dei aula por mais dois anos no Centro de Psicoterapia Existencial, experiência muito importante no meu caminho na Psicologia. A troca com os alunos e com os outros professores é algo que não dá para descrever! Durante esse período dando aulas, mais uma mudança ocorreu na minha carreira. Desliguei-me da equipe para montar uma clínica própria, para seguir "carreira solo", como costumava dizer. Nesse sentido, lembro-me de um professor muito querido no meu curso de formação, que ministrava aulas sobre o pensamento de Heidegger. Ele dizia: "todas as coisas tem prazo de validade. Os relacionamentos, os sonhos, os desejos... isso não quer dizer que as coisas acabem, mas sim que elas são ressignificadas, que de alguma forma elas se transformam, e aquilo que um dia bastava, hoje já não é suficiente, por isso precisa ser transformada!" Foi exatamente isso que aconteceu com a minha experiência em equipe. Senti que em um determinado momento eu queria algo diferente, sem desprezar toda a vivência e experiência que adquiri ao longo dos anos com minha equipe.
Ressignifiquei meu caminho, montei o meu espaço e dei a ele o nome de Espaço Cuidar. Projetos novos aconteceram, novas parcerias, muito trabalho, a ponto de chegar em um momento de escolha: abri mão das aulas no Centro de Psicoterapia Existencial em função de todas as demandas no meu Espaço.
Na época em que essa escolha foi realizada, também precisei me ausentar das aulas que eu oferecia no Espaço Cuidar, para poder me dedicar aos atendimentos e demais projetos do Espaço Cuidar. Afastei-me da atividade docente presencial, mas continuo, até hoje, oferecendo cursos à distância sobre a Fenomenologia Existencial.
Lá se vão cinco anos aqui no Espaço Cuidar, sempre com muito trabalho, novas ideias, vários contatos. Temos um site interativo que está no ar desde 2007 que me proporciona a troca com pessoas do Brasil inteiro, e até fora do país, que buscam informações, conhecimentos e compartilham sua visão de mundo, contribuindo sempre, cada vez mais, para minha formação! Nosso endereço:
www.espacocuidar.com.br
Sou muito realizada no que faço e percebo que tudo foi sendo construído ao longo do tempo, com muita dedicação e paciência. Ouço muito as pessoas dizerem que a Psicologia Clínica é elitista - mas já fiz muito projeto social nesse tempo todo! Outro mito que sempre ouvi: você não consegue se estabelecer financeiramente com a clínica, ela será sempre sua atividade secundária - bom, eu discordo! No meu caso, eu sempre me sustentei com a clínica, que sempre foi a minha atividade principal; foi ela que me deu condições de estudar, de ir para o hospital, de dar aula, enfim! Gosto de falar isso para aqueles que querem seguir por esse caminho - não desistam antes de tentar! Comecem aos poucos, sem pressa, mas com objetivos determinados. Acreditem e se empenhem! Façam contatos, estudem, busquem o conhecimento! Não é necessário grandes recursos financeiros para isso - montem um grupo de estudos, busquem na internet, há muita coisa boa, fazendo um filtro é claro!
Finalizo esse panorama da minha trajetória na Psicologia desejando que essas linhas possam ser uteis, de alguma forma, para quem está começando uma longa história profissional.
Este foi um primeiro post. Escreverei mais dando dicas e falando sobre os desafios enfrentados nos primeiros anos de profissão. Espero que vocês contribuam com temas a serem desenvolvidos, dúvidas, relatando experiências, enfim, toda participação será sempre muito bem vinda!