Começarei a escrever uma série de
textos que abordam ideias contidas em Ser e Tempo, livro de Heidegger no qual
ele expõe sua ontologia. Começarei pelo parágrafo 24, do capítulo três, que tem
como título: “A espacialidade da presença e o espaço”. É importante dizer que a
proposta não é seguir o livro em sua ordem de apresentação, mas destacar alguns
temas e aproximá-los de uma compreensão mais acessível.
Nesse parágrafo, Heidegger nos
mostra como ele concebe o espaço de forma originária, contrapondo-se ao espaço
que o modo de pensar ocidental nos incute dentro da tradição. Isso ficará mais
claro ao longo do texto.
Iniciando nosso tema, é
necessário pontuar que o espaço que nós vemos não é como uma coisa, mas é o
lugar onde todas as coisas estão. Heidegger diz que nós estamos condicionados a
ver o espaço de forma objetivada, como se usássemos o mesmo tipo de olhar que
vemos os objetos do mundo para ver também o espaço. E Heidegger vai descontruir
essa concepção e nos apresentar uma nova forma de perceber o espaço. Por
exemplo, uma mesa me fala de um lugar onde eu coloco meu caderno, meu café ou
tudo aquilo que é simplesmente dado, aquilo que não tem nenhuma característica
a não ser a sua presença física – as coisas em si. O espaço que nós falamos no
início deste parágrafo compreende esse mesmo modelo – e é, portanto, um espaço
vazio, homogêneo. Mas Heidegger diz que o espaço não é originariamente
apreendido assim, mas de forma regionalizada: aqui é o lugar para eu estudar,
aqui é para eu trabalhar, aqui é o lugar para eu descansar... É assim que
compreendemos o espaço e nunca, de cara, como um vazio que contem coisas.
Quando um ente chega ao encontro,
o mundo ao qual pertence esse ente já foi descoberto. Mundo é uma totalidade
conjuntural compreendida por Dasein. A região é um ‘para onde’, em que as
coisas vêm ao encontro. Região é onde se estabelece uma conjuntura de encontro.
Portanto, o ente vem ao encontro
de Dasein, que já descobriu o mundo, que já apreendeu o espaço e que aloca esse
ente em uma rede de remessas significativas, de acordo com sua historicidade.
Nesse momento, Heidegger fala de ‘arrumação’ – darei um contorno a experiência de
acordo com o momento conjuntural que posso perceber. Deixar vir ao encontro é
dar espaço para que as coisas aconteçam.
Assim, podemos dizer que o nosso
espaço é arranjado, marcado por regiões, que as coisas que vêm ao encontro estão
em determinada distância e direção. Dessa forma, damos espaço e arrumamos às
coisas que irão compondo a nossa história.
Na medida em que Dasein é abertura,
as coisas já chegaram e aí resta a arrumação, que é o mesmo que colocar as
coisas na ordem do aceitável. Este é o processo de familiaridade e envolvimento
com aquilo que chega a uma rede de remessas do seu cotidiano. É o dar espaço. E
tem coisas que chegam independente de se querer dar ou não espaço – uma perda
de um ente querido, por exemplo, ela chega e o que resta é o processo de
arrumação, e buscar a familiaridade com a ausência da pessoa.
O espaço, então, é descoberto
enquanto essa espacialidade, porque ele não é o espaço tridimensional, que pode
ser medido, objetivado. Heidegger nos fala do espaço no qual nós vivemos e
acontecemos.
Eu posso até medir o espaço,
dizer que ele é homogêneo, não diferenciado, tridimensional e dar significado a
isso. Mas preciso ter claro que não é dessa forma que eu vejo inicialmente o
espaço, porque esse não é o espaço que Dasein descobre inicialmente. Essa é a
questão central desse parágrafo.
Esse espaço que estamos acostumados
a nos referir é um espaço concebido apenas intelectualmente, pois ele é espaço
vazio. Mas uma questão é levantada: uma coisa é você conceber intelectualmente
algo – e isso é, sem dúvida, um projeto de compreensão (isso é ser ocidental –
é lidar com a coisa de modo que se possa mensurar, controlar, etc.). Mas isso
não é o que vem em primeiro lugar; o que vem em primeiro é o que ele chama
dessa espacialidade – a descoberta de regiões, que vêm em um contexto à mão,
distanciado e direcionado, porque eu descubro o espaço na vivência. Esse é a
primeira forma de apreender o espaço pelo Dasein. Eu descubro o espaço andando,
indo para a faculdade, para a minha casa... E não de forma puramente
intelectual. Heidegger, então, pergunta: porque esse espaço vivido fica em
segundo plano e as pessoas colocam o espaço vazio como o primeiro a ser
descoberto?
Só posso descobrir o espaço na
vivência. Na vivência eu já descobri o espaço! E espaço como conjunto de
regiões, em um contexto à mão.
Interessante perceber que sendo o
espaço dado em regiões, eu não as vejo, mas me movo nessas regiões. Nem o espaço está no sujeito e nem o mundo
está no espaço.
Heidegger vai enfatizar a
descoberta fenomenológica de que o espaço está no mundo (mundo como rede de
significados). Observe: o ser-no-mundo constitutivo do Dasein já sempre
descobriu o espaço. Então, quem descobre o espaço? Dasein. Dasein é
ser-no-mundo. Portanto, o espaço está no mundo.
Dasein descobre o espaço,
originariamente, da mesma forma como ele descobre as coisas: a partir de sua
acessibilidade. Eu não vejo as coisas isoladamente, mas eu vejo um todo, já
percebido. Não vejo uma mesa e depois o copo que está sobre a mesa. Eu já vejo
a mesa que serve de base para tal copo, que serve de recipiente para meu café e
assim por diante...
Tudo o que está aí, no mundo, no
espaço, está radicado no descobrir originário de Dasein.
Heidegger dirá que a mesa é intraespacial
e que Dasein é espacial. Dasein é mundano, porque o mundo é uma parte do seu
ser. Já o lápis que eu utilizo para escrever é intraespacial.
Porque Dasein é espacial, o
espaço se apresenta como uma apriori.
Heidegger não nega que exista o
espaço formal, puro, passível de ser mensurado, controlado – por exemplo, compro
um terreno com tal metragem para poder construir uma casa que eu projetei para
atender a tais e tais necessidades. Mas ele diz que simplesmente, esse é um
espaço que vem depois daquele que é captado originariamente, na vivência.
A espacialidade está no plano
ontológico. O espaço está no plano ôntico, e aí sem eu posso tematizar, tirar
medidas, etc. Mas até a medição é a medição para alguma coisa, porque eu olho
para um terreno e apreendo aquele espaço como o espaço que eu posso construir
uma casa. Eu vejo com um direcionamento. Não é o ver isoladamente, não é o espaço
formal, puro. Dasein já viu e compreendeu tal espaço – no âmbito da ocupação.
Primeiro vem uma base fenomenal –
o espaço descoberto na vivência – que apoia a descoberta e a elaboração
temática do espaço puro – a construção de uma casa nesse terreno, com essas e
essas medidas.
Dasein é sempre ser-no-mundo que
se ocupa desse espaço. Ampliando o que estamos dizendo, vamos falar sobre o
cuidado. Dasein está sempre cuidando do seu se e apreende as coisas nesse
cuidado, que engloba um todo. Isso não significa que Dasein não consiga
recortar um elo dessa rede de conexões e objetivar. Tirar de um contexto
ocupacional e apenas olhar. Eu não sou um sujeito da visão pura, mas sou um
sujeito da circunvisão – que olha remetendo sempre uma coisa à outra.
Heidegger coloca a circunvisão em
contraposição à visão pura, e por isso podemos concluir que Dasein é muito mais
um ‘compreendedor’ do que um ‘perceber’. Se estou sempre ocupado em uma
circunvisão, remetendo uma coisa a outra, então eu sou menos um percebedor do
que um compreendedor, porque remeter algo a outro significa que eu já consegui
compreender um todo articulado. E aqui temos o elemento hermenêutico da
existência humana que mostra que somos, antes de qualquer coisa, um ser que
compreende, que interpreta mundo. Antes de saber o tamanho do espaço, eu já
compreendi o espaço servindo ou não para tal coisa.
Quando eu olho o espaço abstrato,
independente de uma rede de remessas significativas, eu tenho o espaço puro e
aí as regiões somem. O olhar se torna homogêneo e passa por cima daquilo que já
foi descoberto previamente, ele passa por cima do mundo. O mundo perde seus
contornos, suas especificidades.
Com essa exposição, podemos
perceber a importância de refletirmos sobre essa questão, fazendo com que nossa
relação com esse espaço originário, descoberto na vivência, possa ser
considerado e validado em nossa própria experiência cotidiana, afinal somos
ser-no-mundo, somos espaciais!
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