"Viver ultrapassa qualquer forma de entendimento"
Clarice Lispector

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Um pouco sobre a história da Psicologia

Compartilho com vocês o texto que eu escrevi para o meu site do Espaço Cuidar.
Procurei trazer um panorama geral sobre o contexto no qual a Psicologia surgiu, levantando os principais aspectos que contribuíram para o conhecimento que temos hoje.
Comentários e dúvidas são sempre muito bem vindos!
Vamos ao texto:


O objetivo deste texto é refazer, ainda que por vezes através de atalhos, o longo caminho percorrido pelo pensamento humano, na direção da compreensão deste infinito objeto de estudo que é o homem. E como todo caminho, neste também iremos nos deparar com convergências, mãos duplas e obstáculos que poderão nos fazer retornar ou poderão nos oferecer a instigante opção do avanço. Nesse caminhar encontraremos marcos históricos, espaços, datas e personagens importantes.

sábado, 19 de maio de 2012

Para refletir...

Começando o Sábado compartilhando uma frase da Clarice Lispector, uma das minhas escritoras preferidas!

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não! Quero é uma verdade inventada!" 

Trecho retirado do romance "Água Viva"




Um ótimo Sábado a todos!!!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Dicas para estudantes e recém-formados em Psicologia

A ideia deste post é compartilhar algumas dicas com os estudantes e recém-formados em Psicologia que almejam a inserção na área clínica. Para isso, considero importante falar um pouco da minha trajetória profissional, que conta mais de doze anos de atuação... Como passa rápido!
Começo destacando a importância dos estágios acadêmicos. Eles deixam o aluno em um ponto de exaustão tremendo - os primeiros contatos com os clientes, relatórios, supervisões, avaliações... Mas mesmo com todo esse estresse, eles são experiências poderosas que marcam a vida profissional de forma muito intensa. Lembro-me do meu primeiro atendimento na clínica-escola do Mackenzie, onde me formei. Era um processo de psicodiagnóstico para a matéria de Técnicas e Exames Psicológicos (TEP) e recebemos, eu e minha dupla (a querida amiga Izabella Barros), a mãe de um menino de seis anos que dizia que seu filho era uma criança muito fácil, e exemplificou da seguinte maneira: "no dia do seu aniversário ele me pediu um relógio de pulso e um ovo frito! E era isso que o faria feliz". Eu cito esse fato para ressaltar a riqueza desse contato: mais do que estagiários que estão sendo avaliados em uma clínica-escola, estamos, nesse momento, em contato com a singularidade daqueles que nos procuram, estamos em contato com histórias diversas e únicas e precisamos estar inteiros ali, naquele momento, para percebermos o que o cliente está nos falando. E esse menininho de seis anos, na sua simplicidade, apresentou-me um mundo completamente novo e diferente das minhas referências até então. Por isso, aos estudantes, a primeira dica: procurem aproveitar esse momento com o seu cliente, esqueçam o relatório, a avaliação, a nota... ofereçam uma escuta cuidadosa, acolhedora, presente! Considerem a suas impressões, deem espaço à intuição e quanto ao medo de errar... bom, pensem que vocês estão começando a construir o profissional que querem ser (e detalhe: essa construção nunca termina, mesmo com anos e anos de experiência!) e os erros fazem parte de qualquer percurso! Mas eu acredito que em situações críticas, de difícil manejo ali com o cliente, não pensem no que o supervisor vai dizer - se você agiu de forma correta ou não, se isso implicará na sua nota... Mas lembrem-se que vocês estão diante de outro ser humano e que se agirem de forma ética, coerente com a compreensão que estão tendo no encontro terapêutico, dificilmente errarão! Falo isso porque considero que esse encontro psicólogo-cliente extrapola qualquer teoria ou manual teórico que possa existir na Psicologia!
Bom, tive a felicidade de cursar uma faculdade que me ofereceu uma bagagem muito significativa na área clínica, repleta de estágios curriculares e extra-curriculares! Se o seu curso oferece a possibilidade de escolha entre matérias apenas teóricas e matérias teórico-práticas, escolham as últimas!
Concluído o curso, sai em busca de contatos e parcerias. Para isso, juntei meus projetos realizados na faculdade e visitei algumas escolas e clínicas, colocando-me à disposição. Dessas visitas nasceu uma parceria com uma escola particular que abriu espaço para que eu implantasse meu projeto de Orientação Vocacional junto aos alunos do último ano do ensino médio. E foi assim que me senti psicóloga andando com as próprias pernas! É claro que na época fazia minha psicoterapia pessoal e tinha meu grupo de supervisão. Isso é fundamental na formação do psicólogo! A partir do meu trabalho em O.V., recebi alguns encaminhamentos por parte da coordenadora pedagógica e foi assim que comecei a atender no consultório.
A princípio, sublocava um espaço, o que considero até hoje a melhor opção para quem está começando.
Nesse ponto, gostaria de reforçar mais alguns pontos, agora para os recém-formados. Não tenham medo de se mostrarem! Se você não buscar esses contatos, eles não cairão nas suas mãos sem esforço. É claro que você escutará muito mais a palavrinha "não", ok! A questão é não desanimar! Faça um levantamento dos lugares que gostaria de propor parceria ou oferecer seu trabalho. Prepare um material de apresentação para deixar nos locais que visitar - seu currículo, seu cartão, uma proposta de trabalho, como por exemplo: um programa de palestras ou de Orientação Vocacional.
Muitos psicólogos dizem que não atuam na clínica porque é uma área muito solitária, que é você e seu cliente entre quatro paredes e só... isso, no meu ponto de vista, é uma grande falácia! Sempre trabalhei em consultório e a última coisa que eu considero é que essa seja uma atividade solitária! Precisamos estar sempre buscando parcerias, ampliando nossa rede de contatos, estudando, fazendo cursos e conhecendo pessoas, e mesmo quando estamos diante de nosso cliente, estamos diante de um mundo que se abre na nossa frente, completamente único, dinâmico, imprevisível! Isolar-se nas paredes do consultório pode até ser uma escolha, mas está longe de ser a regra!
Uma alternativa muito interessante nesse sentido é formar um grupo de estudos com colegas de faculdade que compartilhem os mesmos interesses na Psicologia.
Continuando minha trajetória, após dois anos formada, continuava com o programa de Orientação Vocacional e os atendimentos clínicos e uma nova configuração aconteceu na minha carreira - integrei uma equipe multiprofissional, composta por psicólogas, psicopedagogas e fonoaudiólogas. Essa nova fase foi fruto dos contatos que estabeleci ao longo dos dois anos como psicóloga. Com essa equipe permaneci bons anos, sendo uma experiência extremamente enriquecedora. Nesse momento, já tinha uma caminhada que me permitia alçar voos mais altos e foi o que aconteceu - montei, junto com essa equipe, uma segunda unidade da clínica e participei de cada fase da construção de um espaço terapêutico, desde a escolha do local, a distribuição das salas, a decoração da clínica, a contratação de funcionários, a divisão das despesas, investimentos com divulgação... e assim, um novo capítulo na minha história profissional foi construído, cheio de conquistas, trocas, crescimento, aprendizagem, responsabilidades. Aprendi que para trabalhar em equipe é preciso alinhar objetivos respeitando as individualidades - só assim a equipe cresce como um todo! E essa foi uma experiência muito bem sucedida!
Já estabilizada na clínica, voltei meu olhar para uma outra área da Psicologia que também sempre me atraiu - a Psicologia Hospitalar. E investi nessa opção - busquei cursos, informações sobre aprimoramentos, estudei muito e consegui ingressar no programa de aprimoramento do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. Outra oportunidade fantástica que acrescentou muita experiência à minha bagagem. Estar em um hospital do porte do HC, em um centro de referência como é o InCor, trabalhar ao lado de profissionais competentes, foi de fato muito importante! Lá pude vivenciar situações inusitadas, descobrir como uma palavra ou "simplesmente" a escuta faz toda a diferença para alguém que está totalmente fragilizado no ambiente inóspito que é o hospital. E assim eu vi a importância da Psicologia dentro do contexto hospitalar (embora nem todos os profissionais a reconhecessem...) e ficava cada vez mais encantada com a beleza da minha profissão! Foi ficando cada vez mais claro que todo crescimento, toda mudança que acontece no processo psicoterapêutico, se dá na troca entre psicólogo-cliente! É o encontro, é a troca, é a implicação dos dois lados que promove a saúde. Não é o conhecimento do profissional, quantos cursos ele tem ou o quanto ele sabe... isso não basta se ele não conseguir olhar para a pessoa que está diante dele e ter o interesse genuíno de acolher o que é dito. Depois do aprimoramento, busquei o curso de aperfeiçoamento, mas no Hospital do Servidor Publico. Com essas duas experiências no hospital tive contato com uma realidade diferente daquela do consultório - demandas diferentes, contextos sociais distintos, mas o raciocínio clínico é o mesmo! Isso não muda!
Conforme vivi essas experiências, fui percebendo que me fortalecia cada vez mais como profissional e sobretudo me reconhecia na minha escolha profissional.
Durante esse tempo que estive no hospital, foi perfeitamente possível conciliar aprimoramento/aperfeiçoamento com a clínica. Uma experiência complementava a outra!
Foi no hospital também que eu consegui definir a abordagem que eu sigo até hoje na Psicologia! E isso só aconteceu após cinco anos de experiência na área. Diante da dor, do sofrimento, da angústia e da proximidade com a morte - aspectos tão fortes no cenário hospitalar - comecei a questionar muitos pontos que sustentavam teoricamente o meu trabalho como psicóloga. Como, em um contexto tão restrito - enfrentado por muitos pacientes - alguns conseguiam ter esperança, fazer projetos e encontrar sentido para continuarem vivendo e lutando pela vida! Pulsão de vida & pulsão de morte não eram suficientes para dar conta daquelas situações... mecanismos de defesa, inconsciente, traumas... era tudo muito pequeno diante da realidade que eu presenciava dia a dia no hospital. E foi assim que eu deixei a via da Psicodinâmica e entrei na Fenomenologia Existencial!
A partir dessa experiência, busquei um curso de formação em Psicoterapia Fenomenológico-Existencial. Isso aconteceu em 2005, o curso teve duração de dois anos e de lá pra cá não parei mais de estudar a abordagem! Escreverei outro post falando da minha relação com a Fenomenologia Existencial e como ela me encanta cada vez mais... essa é uma longa história! Nesse momento, quero ressaltar um ponto: as pessoas saem da faculdade julgando que precisam definir uma abordagem, uma área... e aí é enfrentar uma grande angústia, pois são muitos caminhos a serem seguidos! E eu pergunto: por que você acha que tem que escolher um caminho, uma abordagem?
Calma! Eu penso que não precisa! Você sai da faculdade com uma bagagem que te possibilitará atuar como profissional, qualquer seja o caminho a ser escolhido. Mas não podemos esquecer que a faculdade é generalista. Você vai aprender um pouquinho de cada coisa e mesmo assim, não pense que terá contato com todas as possibilidades! No meu caso, eu praticamente não tive nada sobre a Fenomenologia Existencial na faculdade! Por isso, eu costumo dizer que nós estudamos muito, mas muito mais, depois que terminamos a faculdade. E o melhor da história: é que aí estudaremos o que realmente nos interessa! Quantas matérias eu precisei estudar na faculdade, que hoje faço questão de não querer saber... Por esses motivos, penso que a escolha de uma abordagem deva partir da sua prática, da sua experiência, de como você vai se descobrindo como profissional, nomeando a sua visão de homem e de mundo... e aí, a escolha acontece muito naturalmente! Eu até penso que não escolhi a abordagem, mas ela me escolheu! É uma sensação compartilhada com muitos outros colegas de profissão que também fizeram escolhas a partir da prática e não o contrário!
Após concluir a formação, fui convidada a assumir como professora dois módulos no curso - o de Psicoterapia Infantil e o de Somatização. E nesse momento, mais um grande desafio - encarar a atividade docente, totalmente inédita na minha carreira. Só lembrando - tudo isso acontecendo sempre concomitante ao meu trabalho na clínica!
Dei aula por mais dois anos no Centro de Psicoterapia Existencial, experiência muito importante no meu caminho na Psicologia. A troca com os alunos e com os outros professores é algo que não dá para descrever! Durante esse período dando aulas, mais uma mudança ocorreu na minha carreira. Desliguei-me da equipe para montar uma clínica própria, para seguir "carreira solo", como costumava dizer. Nesse sentido, lembro-me de um professor muito querido no meu curso de formação, que ministrava aulas sobre o pensamento de Heidegger. Ele dizia: "todas as coisas tem prazo de validade. Os relacionamentos, os sonhos, os desejos... isso não quer dizer que as coisas acabem, mas sim que elas são ressignificadas, que de alguma forma elas se transformam, e aquilo que um dia bastava, hoje já não é suficiente, por isso precisa ser transformada!" Foi exatamente isso que aconteceu com a minha experiência em equipe. Senti que em um determinado momento eu queria algo diferente, sem desprezar toda a vivência e experiência que adquiri ao longo dos anos com minha equipe.
Ressignifiquei meu caminho, montei o meu espaço e dei a ele o nome de Espaço Cuidar. Projetos novos aconteceram, novas parcerias, muito trabalho, a ponto de chegar em um momento de escolha: abri mão das aulas no Centro de Psicoterapia Existencial em função de todas as demandas no meu Espaço.
Na época em que essa escolha foi realizada, também precisei me ausentar das aulas que eu oferecia no Espaço Cuidar, para poder me dedicar aos atendimentos e demais projetos do Espaço Cuidar. Afastei-me da atividade docente presencial, mas continuo, até hoje, oferecendo cursos à distância sobre a Fenomenologia Existencial.
Lá se vão cinco anos aqui no Espaço Cuidar, sempre com muito trabalho, novas ideias, vários contatos. Temos um site interativo que está no ar desde 2007 que me proporciona a troca com pessoas do Brasil inteiro, e até fora do país, que buscam informações, conhecimentos e compartilham sua visão de mundo, contribuindo sempre, cada vez mais, para minha formação! Nosso endereço: www.espacocuidar.com.br
Sou muito realizada no que faço e percebo que tudo foi sendo construído ao longo do tempo, com muita dedicação e paciência. Ouço muito as pessoas dizerem que a Psicologia Clínica é elitista - mas já fiz muito projeto social nesse tempo todo! Outro mito que sempre ouvi: você não consegue se estabelecer financeiramente com a clínica, ela será sempre sua atividade secundária - bom, eu discordo! No meu caso, eu sempre me sustentei com a clínica, que sempre foi a minha atividade principal; foi ela que me deu condições de estudar, de ir para o hospital, de dar aula, enfim! Gosto de falar isso para aqueles que querem seguir por esse caminho - não desistam antes de tentar! Comecem aos poucos, sem pressa, mas com objetivos determinados. Acreditem e se empenhem! Façam contatos, estudem, busquem o conhecimento! Não é necessário grandes recursos financeiros para isso - montem um grupo de estudos, busquem na internet, há muita coisa boa, fazendo um filtro é claro!
Finalizo esse panorama da minha trajetória na Psicologia desejando que essas linhas possam ser uteis, de alguma forma, para quem está começando uma longa história profissional.
Este foi um primeiro post. Escreverei mais dando dicas e falando sobre os desafios enfrentados nos primeiros anos de profissão. Espero que vocês contribuam com temas a serem desenvolvidos, dúvidas, relatando experiências, enfim, toda participação será sempre muito bem vinda!  
                  

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cursos à distância oferecidos no Espaço Cuidar - Clínica Psicológica e Centro de Estudos

O Espaço Cuidar oferece quatro cursos à distância para quem quer conhecer mais sobre a abordagem Fenomenológico-Existencial.


Como funcionam os cursos à distância?
O interessado deve realizar o depósito no valor do curso e, em seguida, enviar por e-mail o comprovante de pagamento juntamento com seus dados completos - nome  e endereço.
Assim que confirmarmos o depósito, o material do primeiro módulo é enviado, também por e-mail, para que o aluno dê início aos estudos. 
Cada módulo é formado por uma apostila, um roteiro de leituras, textos complementares, bibliografia e proposta de avaliação. 
Após o estudo de todo o material, o aluno deve encaminhar sua avaliação, para que possamos dar nosso parecer e enviar o módulo seguinte, dando prosseguimento aos estudos.
Após a conclusão do curso, o aluno recebe via correio seu certificado. 

A quem se destina os cursos?
Aos estudantes e profissionais da Psicologia e áreas afins. 

Qual a duração dos cursos? 
Não estabelecemos prazos para o cumprimento de cada módulo, de forma que o próprio aluno deverá organizar-se em seus horários de estudo, de acordo com sua disponibilidade. 

Qual o valor dos cursos?
R$ 270,00 cada curso. 

Obs.: Todas as dúvidas que surgirem no decorrer do curso serão tiradas por e-mail. Considero importantíssimo reforçar que esse contato é fundamental para o andamento do curso. 

Mais informações no site www.espacocuidar.com.br

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Curso de Aperfeiçoamento: Orientação à Queixa Escolar

Inscrições de 28/5 a 11/6/2012


De 2/8/2012 a 27/6/2013
Às Segundas-feiras, das 9h15 às 11h15; e às quintas-feiras, das 9h15 às 11h15, e das 11h5 às 13h15. (Mais 2 horários a combinar para atendimentos)

Objetivo do Curso
Contribuir para o aperfeiçoamento de psicólogos que realizam atendimento à queixa escolar,      apresentar as principais críticas ao modelo tradicional e oferecer alternativas de intervenção breve e focal, envolvendo todos os participantes da produção de tais queixas (pais e escolas, além dos alunos).

Público-alvoPsicólogos

Docente Responsável
Profa.  Dra. Marilene Proença Rebello de Souza

Supervisão
Ms.  Beatriz de Paula Souza                                                            

Gratuito
Inscrições
Pessoalmente, de 28/5 a  11/6/2012, das 9h às 11h e das 14h às 16h
IPUSP: Av. Prof.  Mello Moraes, 1721 – Bloco D

Documentos                                          
-  Curriculum Vitae                                                               
-  Cópia  do CRP                                                                    
-  Cópia do diploma de Psicologia                                                             
-  Cópia do R.G.
Mais informações
Telefone:  11- 3091-4172  (com Odete)     


Local                                                                                                    
Instituto de Psicologia da USP
Av. Prof.  Mello Moraes, 1721 – Bloco D
Cidade Universitária, São Pauo, SP
(ao lado da ECA)

Intencionalidade - Ato de significar a vida


Um dos conceitos centrais que a Fenomenologia nos apresenta é o de intencionalidade. Neste pequeno texto vamos elucidar os motivos dessa importância e seus desdobramentos.
A Fenomenologia surge como uma nova forma de compreender o ser humano e o mundo que não apenas a partir do paradigma metafísico que separa sujeito e objeto em duas instâncias que estabelecem entre si uma relação causal. Essa nova compreensão que a Fenomenologia inaugura refere-se a conceber homem e mundo como unidade, sendo que um não pode existir sem o outro.
Falar isso não parece novidade quando pensamos na Psicossomática que propõe justamente um olhar mais amplo, holístico, que leve em consideração o homem em suas dimensões biológica, social, psicológica e espiritual. Colocando um olhar mais atento nessa questão, percebemos que mesmo nesse cenário o homem é inicialmente dividido e todo esforço gira em torno de devolver a esse homem uma unidade.
E aí surge a Fenomenologia dizendo que o homem não está dentro do mundo como uma coisa dentro da outra. Homem e mundo coexistem, necessariamente, a partir da intencionalidade da consciência. Um não é sem o outro. Não há nada, absolutamente nada, fora da unidade homem-mundo.
Diferente da ideia de consciência como sendo receptáculo de lembranças, pensamentos, memória, para Husserl – fundador da Fenomenologia – a consciência é sempre intencional, ou seja, está sempre voltada para um objeto, sendo que este objeto é sempre objeto para uma consciência. Podemos afirmar, então, que intencionalidade é o ato de significar o mundo a partir de uma singularidade.
Mundo está sendo utilizado nesse contexto como o conjunto de relações significativas que cada ser humano estabelece entre si, com os outros e com os acontecimentos vividos. Mundo é sempre realidade percebida, sentida, vivenciada da maneira própria de cada envolvido nessa dialética que compõe a vida.
Aqui já entramos no campo do Existencialismo, que nos oferece pressupostos filosóficos importantes para o nosso entendimento acerca do humano. Quem é o Homem, portanto?
Ele é um constante vir-a-ser, lançado nessa trama de relações significativas que compõe o mundo, tendo que lidar com as solicitações, os limites e as oportunidades que o mundo oferece. Podemos dizer que o homem é uma história que está acontecendo. Nessa história algumas coisas são determinadas pelo mundo, pela facticidade – o lugar que se nasce, a época em que se vive, a família na qual se chega. Outras tantas são escolhas feitas a partir de um entendimento próprio, de como cada um percebe a si mesmo, ao mundo e ao outro.
Essa é uma característica fundamental do ser humano: ser abertura que acolhe tudo aquilo que vem ao encontro, atribuindo significados que constroem a trama da vida, a trama de cada história. O que vem ao encontro dessa abertura são os acontecimentos que afetam esse homem ao longo de sua trajetória, impulsionando-o em direção às escolhas possíveis.
Nesse sentido podemos perceber que cada pessoa é uma história única. Esse é um dos grandes legados que o pensamento fenomenológico-existencial nos deixa – a liberdade de olhar para cada ser humano respeitando o que nele é mais precioso, ou seja, a sua história, a sua maneira de olhar o mundo, a maneira como cada um significa seus acontecimentos vividos.
E o interessante é que esses significados não são estáticos, eles podem mudar na medida em que novos acontecimentos são acolhidos na história da pessoa, contribuindo para uma compreensão mais ampla do vivido. Algo que em determinado momento era muito importante pode deixar de ser em outra fase, ideias podem perder o sentido, significados podem mudar de feição, aquela dor insuportável por uma decepção pode caminhar para um aprendizado rico e que tenha novos contornos significativos.
Essa fluidez é o que caracteriza o ser humano – fluxo de ideias, de sentimentos, de significados. Ao mesmo tempo em que nos dá uma sensação de liberdade muito boa (não precisamos ficar presos a nada para sempre!), também nos coloca diante da angústia de nos darmos conta que tudo muda o tempo todo!
O passado está determinado em termos de fatos ocorridos, mas nunca em relação aos significados que esses fatos ganham em cada momento da vida de uma pessoa. Essa possibilidade de ressignificar experiências vividas permite ao ser humano superar obstáculos que restringem o seu viver presente. Ninguém pode mudar o passado naquilo que ocorreu de fato, mas pode dar contornos mais saudáveis à própria história, de forma que o passado não seja arrastado como um peso que restrinja o presente. De certo modo, é isso que as pessoas buscam na terapia – desvelar novas possibilidades de ser no presente, ressignificando sua história e construindo um projeto de vida mais autêntico.
Viver, portanto, é estar lançado no presente, cercado de indeterminações, mas exercendo a liberdade de escolha que nos torna autores de nossa própria história.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O MAC ENCONTRA OS ARTISTAS - Carlos Fajardo

Desde 2010, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo propõe novas relações entre o Museu, a arte contemporânea e os artistas da cidade e do país. Organizada em conjunto com o Grupo de Estudos em Crítica e Curadoria do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes (ECA USP), a série de encontros continua sendo um espaço de apresentação e debate da produção artística brasileira e plataforma para uma ação efetiva do MAC USP junto à comunidade artística, aos estudiosos da área e ao público em geral. Nesta quarta edição, a proposta é familiarizar a todos não apenas com a produção da nova geração de artistas, mas também abrir espaço para que artistas já consagrados, e com obras no acervo do MAC USP possam discutir suas trajetórias com o público.

15 de maio - Carlos Fajardo



Artista multimídia, cursou arquitetura entre 1963 e 1972 e, entre 1996 e 2011, foi professor do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. Na década de 1960, Fajardo estudou pintura, desenho, comunicação visual e história da arte com Wesley Duke Lee e música contemporânea com o maestro Diogo Pacheco. Participou da criação do Grupo Rex com Wesley Duke Lee, Nelson Leirner, Frederico Nasser, Geraldo de Barros e José Resende, tornando-se co-editor do jornal Rex Time. Em 1970, com Luiz Paulo Baravelli, Frederico Nasser e José Resende, fundou a Escola Brasil, e estudou gravura em metal com Babinski e litografia com Regina Silveira. Assim, no início de sua trajetória aparecem trabalhos com diferentes técnicas, como objetos, pinturas, colagens, desenhos e gravuras. A partir de 1981 expõe trabalhos em pintura, constituídos por um conjunto de telas e de superfícies em madeira pintada, apenas apoiados nas paredes da sala, criando assim um espaço entre os dois planos. Depois, passa a se dedicar à realização de esculturas em que explora questões como peso, gravidade ou sustentação da obra no solo.

O evento será transmitido ao vivo pelo site http://iptv.usp.br/



Data: terça, 15 de maio de 2012
Horário: 18:00 até 20:00
Local: MAC USP Cidade Universitária



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Trabalhando com crianças na abordagem Fenomenológica


O trabalho psicoterapêutico com crianças acontece em um espaço lúdico, no qual o brincar é o que promove a relação criança-terapeuta, possibilitando a expressão e contato com seus sentimentos, de maneira muito natural.
Muitos profissionais pensam que é necessário aprender várias técnicas, ter vários brinquedos para oferecer, quase como se houvesse um manual que determina como deve ser a brincadeira com a criança. A brincadeira deve ser solta, despretensiosa, sincera, disponível. Principalmente no início do processo, momento em que o vínculo começa a ser estabelecido, e como psicoterapia é relação, nada mais importante do que cuidar do estar com a criança, sem preocupações técnicas ou teóricas. É claro que elas também fazem parte do processo, mas não são elas que dominam o espaço e o fazer clínico, ao menos na abordagem fenomenológica.

A questão da neutralidade do psicoterapeuta


Essa é um dos mais importantes aspectos para pensarmos nossa prática como terapeutas. Afirmo isso porque a terapia só acontece quando a relação cliente-profissional é estabelecida de forma a existir um vínculo positivo de ambos os lados. E como falar em neutralidade quando falamos em relação? A neutralidade idealizada, do profissional que faz “cara de paisagem”, que serve apenas como tela de projeção, não existe. O que existe é uma relação demarcada profissionalmente entre duas pessoas que compartilham sentimentos que lhe são comuns dentro de um tempo e espaço determinados, de caráter sigiloso, onde o profissional oferece uma escuta ativa e cuidadosa e o cliente expõe suas questões a fim de aproximar-se de si mesmo.

Vídeo sobre Fenomenologia

Esse vídeo, produzido por um grupo de estudantes, expressa de maneira muito clara, a partir de imagens, o conceito de "intencionalidade da consciência" proposto por Husserl, o pai da Fenomenologia. Percebam como a vivência de cada pessoa oferece o caminho para a compreensão do mundo, de forma única, singular. Olhar fenomenologicamente é poder respeitar aquilo que se manifesta de forma autêntica a cada um de nós!

Laços e nós - sobre amor e intimidade nas relações humanas



Laços fazem referência a possibilidades afetivas da vida – os laços que podemos criar quando nos unimos a alguém.
Os nós, o sofrimento revelado nos conflitos relacionais.
Por serem mutantes, móveis e flexíveis, os laços podem ser desfeitos, são delicados, unem e sustentam, mas não sufocam, confundem ou aprisionam.
Já os nós, frutos de confusão, pressa, aperto, mistura, nunca sabemos onde estão suas pontas, nos provocam angústia e sofrimento, paralisam e impedem a liberdade.
Laços unem o que estava separado, criando beleza, harmonia, leveza. Laços estão para além das fitas que os compõem. Não é à toa que os usamos em presentes, nos cabelos e para guardar algo importante com delicadeza. Eles encantam e provocam surpresa.
Laços unem, valorizam, enriquecem. Não são uteis, enfeitam e traçam pureza.
Ao criarmos laços, não perdemos a nossa identidade, ao contrário, criamos uma nova forma com base no encontro com outra pessoa. Já os nós são sofrimentos que revelam laços ausentes, saudades do futuro, esperança.
Nós tratados com paciência e delicadeza podem ser desembaraçados e transformados nos laços de amanhã.
Beatriz Helena Paranhos Cardella