O trabalho psicoterapêutico com crianças acontece em um espaço lúdico, no qual o brincar é o que promove a relação criança-terapeuta, possibilitando a expressão e contato com seus sentimentos, de maneira muito natural.
Muitos profissionais pensam que é necessário aprender várias técnicas, ter vários brinquedos para oferecer, quase como se houvesse um manual que determina como deve ser a brincadeira com a criança. A brincadeira deve ser solta, despretensiosa, sincera, disponível. Principalmente no início do processo, momento em que o vínculo começa a ser estabelecido, e como psicoterapia é relação, nada mais importante do que cuidar do estar com a criança, sem preocupações técnicas ou teóricas. É claro que elas também fazem parte do processo, mas não são elas que dominam o espaço e o fazer clínico, ao menos na abordagem fenomenológica.
O profissional que está autenticamente disponível para esse encontro terapêutico saberá identificar as necessidades do seu cliente que aparecem na terapia e decidir qual o melhor momento para propor algumas atividades, mas isso não significa que haja uma regra a ser seguida.
Algumas coisas são claras, como por exemplo, para se trabalhar coisas mais profundas, certamente um bom vínculo deve estar estabelecido. Inicio de terapia não é um bom momento para atividades muito mobilizadoras, porque o vínculo de confiança está sendo estabelecido, nem o terapeuta conhece direito o cliente, e vice-versa. É importante entrar em contato, minimamente com a vulnerabilidade da criança e identificar seus recursos e isso se dá na construção da relação, no processo.
Com crianças no consultório é interessante trabalhar com propostas de atividades. Propostas que elas possam escolher se querem ou não fazer. Preservar a possibilidade de escolha em um espaço que é dela é precioso no trabalho com a criança.
Então, para oferecer uma proposta, o terapeuta deve estar atento ao vínculo com seu cliente além de levar em consideração o suporte que será utilizado na atividade, e introduzir a proposta como um projeto. O projeto será um tema que a própria criança traz, e o terapeuta capta esse pedido, através de sua observação e escuta atenta. Por exemplo, para a criança que tem muita energia e que está com dificuldade de lidar com esse potencial, é possível oferecer um projeto que trabalhe a questão do expressar-se, colocar para fora – trabalhar com argila, construindo um vulcão em erupção, brincar com um “João bobo”, fazer desenhos e dar voz a eles, estabelecendo um diálogo com sua produção… muitas sãos as possibilidades que podem dar abertura para o terapeuta trabalhar a maneira como ela contém seus sentimentos ou como não contém. Durante o projeto – atividade – vais se dando uma linguagem simbólica, do jeito dela, no ritmo dela. Em sessões com a criança, fica um trabalho muito divertido, porque pelo brincar é menos doloroso falar de certas questões, que no caso do nosso exemplo é sobre a sua energia agressiva, por conta da qual ela é sempre mais vista, julgada, avaliada, mal interpretada como sem educação, sem limites. E abordar essa temática em sessão, de forma lúdica, é um jeito diferente de olhar para ela, respeitando-a como individualidade, e buscando compreender o que ela está dizendo com todo esse comportamento. A criança que traz essa energia, arrisco dizer, é a mais ferida e, sendo assim, ela vai ficando muito abandonada justamente porque não desperta empatia nas pessoas. E no brincar terapêutico, na execução do projeto escolhido, essa atividade promove uma empatia dela com a própria dor, e um acolhimento dela para dessa questão, porque ela vai expressar aquilo que sente e assim vamos podendo trabalhar essas feridas nas sessões.
Também podemos trabalhar ludicamente com o adulto e mobilizar as sua criança interna, mas com o adulto os conteúdos chegam com mais delicadeza, sutiliza, até mesmo pelo seu grau de autocrítica.
Como já foi dito, a escolha do tema dependerá da forma como a relação acontece naquele encontro. Ir como a proposta pronta é passar por cima das demandas do próprio cliente – seja ele uma criança ou um adulto.
Na sessão, então, o terapeuta antecipa o convite para a realização de um projeto durante a sessão, mas ressaltando que ele tem escolha de querer ou não fazer aquilo. As vezes o cliente traz um sonho, um tema, ou simplesmente diz ‘hoje eu não sei o que fazer, o que falar’… O terapeuta pode responder: “ocorreu-me de propor um jeito diferente de explorar esse tema, ocorreu-me propor um projeto para trabalhar o que vem aparecendo nas nossas sessões.” E aí, dependendo do cliente, você propõe… e no trabalho individual, vamos percebendo melhor como é a forma que cada um reage às propostas, alguns gostam de lápis, manual, dramatização… bom ter vários recursos para adaptar aos diversos momento.
Às vezes, pegar material de projetos passados e a partir daí, trabalhar aquele tema de outra forma, com outro material – explorando o conteúdo com materiais diferentes, pode ser uma atividade extremamente rica, que nos dá uma dimensão de movimento, de mudanças realizadas no decorrer do processo terapêutico.
Outro aspecto que o terapeuta deve estar atento é quanto à questão das polaridades: a vida é formada por elas. Trabalhar isso em grupo ou individual, fazendo na própria sessão o contraponto, é uma forma cuidadosa de se trabalhar com as pessoas. Por exemplo, após uma atividade que tenha sido mais introspectiva, finalizar com uma atividade que promova a expressão de sentimentos – dentro / fora. Da mesmo forma, podemos trabalhar as polaridades dor e força, fragilidade, recursos, entre outros.
O trabalho com a arte possibilita a desconstrução das defesas e pessoa fica mais aberta, fica mais acessível pelo lúdico, você pode se aproximar de sua ferida sem tantas travas, e por isso que é tão forte.
O trabalho psicoterapêutico, especificamente com a criança, tem uma sutileza e uma delicadeza – a pessoa vai entrando, vai se permitindo, vai experimentando chegar cada vez mais perto de sua essência, de seu ser autêntico. Essa é uma busca que não acaba enquanto estivermos vivos! Que bom!

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